O Cachecol Da Montanha

O Cachecol Da Montanha
(Maria Ester Vidal)          Amadrinhador: Miguel Brasil

No cachecol da montanha feito por nuvens esparsas,
Debruça um ar de bombacha, com pala feito de sol;
Reponta um vento minuano que se perde campo a fora,
E o frio como tranco de espora vai pintando o arrebol!

Da janela enfumaçada pelas lenhas do fogão,
Um olhar lacrimejante pousa num tempo distante,
Em que os cavacos de prosa, na roda do chimarrão,
Ensinavam-nos pra sempre, como se portar como gente,
Na lida com a multidão.

Eram os invernos que a vida usava pra educação...!
O frio servia pras noites, enluaradas ou não,
Cobrir com o poncho fraterno, o pensar ainda terno,
Do piazedo em ascensão!

Ao redor daquele fogo, se falava do angico,
De gado, campo e ancestrais...
De como lidar com a vida, sem esquecer os demais!
E tudo era aprendido...! E como aquele fogo tinindo,
O coração ia indo se aquerenciar nos rosais!

E este olhar na janela, que vê a nuvem passar...
Vê passar também a trote, todo e qualquer suporte,
Para homens sem linguajar!
É a cultura do Rio Grande que ensina desde pequeno,
Moral, ética, valores,
Formando reais doutores com a essência do lugar!

No cachecol da montanha debruço sonhos de infância,
Alambro naquela estância a sombra dos parreirais...!
Lembro das grandes figadas
Que ficavam no fogão,
Endossando as gargalhadas
Das piadas de galpão!

Nelas ficaram incrustadas
Lições de pais e avós,
Que nestes invernos sulinos,
Acalentam seus meninos,
Para serem homens de voz!

Pena que na montanha o cachecol faça a manha
Sem hoje muito esperar!
Este abraço de invernias que ensinava e protegia,
Hoje perdeu a magia... Hoje é difícil de achar!



11 O CACHECOL DA MONTANHA by Maria Ester Vidal

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